A PARTEIRA MÃE BERÉ - POESIA

A PARTEIRA MÃE BERÉ

Nunca se ouviu Beré dizer:
“Quem pariu Mateus que o embalance”.
Embalançaste quantos Mateus
sem os ter parido algum?

Com a porta entreaberta,
o sorriso sem trinco,
cantigas de rodas na calçada
de crianças dos gerais e das caatingas;
a orelha enfeitada com um simples brinco.
Pra quem chega do sol de Barreiras
sombra, água fresca de moringa
e a saudação “seja bem-vindo”.
A parteira espera no porto
como quem espera um barco;
espera de pé quem sentado está
acomodado no amniótico saco;
espera não quem bate à porta lá fora;
espera quem de dentro quer vir
para o mundo aqui de fora;
quem quer respirar o ar
de uma nova aurora.

Espera (a parteira) quem bate à porta
como o sol bate nas pálpebras;
quem bate não com o murro que soca,
quem bate dando chutes de dentro pra fora;
quem se debate dentro do útero,
às vezes único, ou em dupla, sêxtuplos,
avisando que chegou a hora.

A parteira espera sem pressa,
espera sem fazer esforço;
espera como quem espera a primavera
apesar do outono que envelhece;
espera sem forçar a barra
(encontro do rio Grande com o rio São Francisco em Barra);
sem querer usar a força do fórceps;
sem querer meter os pés pelas mãos
(as aguas claras e barrentas dos rios não se misturam)
sem querer ser, sendo, entretanto,
de uma multidão sua mãe de
criação.

Vieste dum riacho em Água Doce.
 Além da trouxa de roupa,
trouxeste  com açúcar e com afeto
paciência para ver crescer os fetos
prematuros ou de nove meses;
espera (a parteira) cabeça, tronco e membros
espera para o mês que vem
janeiro, fevereiro, dezembro.

Na cabeceira, à beira de Beré
outras beiradeiras esperam.
Rente com o pé no batente,
a operária opera o trabalho de parto:
bacia com água, álcool e algodão;
as contrações aumentam;
de dentro do ventre o rebento
deixa o oxigênio da placenta
pra respirar o ar do meio ambiente;
tapa no bumbum do bebê;
a parteira fez sua parte no parto:
“novo barreirense!”

O corte no cordão umbilical
(andorinha-tesoura à flor d´água do rio Grande),
galo cantando longe, três vezes;
coto umbilical cortado e seco
enterrado debaixo da roseira
Mãe Beré evita dizer:
“Quem pariu Mateus que o embalance”

Por Clerbet Luiz
 
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Clerbert Luiz é baiano, poeta de nascença, inspirado pelas figuras reais de seu cotidiano.  

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