A MANIFESTAÇÃO DE PAIXÕES NO LIVRO A ELITE DA TROPA 2: UMA ANÁLISE SEMIÓTICA

O presente trabalho tem por objetivo estudar à luz da semiótica francesa, trechos do livro A elite da
tropa 2, obra lançada pela editora Nova Fronteira em 2010, de autoria de Luiz Eduardo Soares, Cláudio Ferraz, André Batista e Rodrigo Pimentel. A narrativa romanceia o mundo difícil da sociedade e da polícia carioca, sua rotina de confronto com as milícias e com a corrupção, diferenciando-se das narrativas policiais ficcionais convencionais pelo fato de os enunciadores simularem suas vivências pessoais, para criarem na obra não somente efeito de sentido de subjetividade, mas também pela simulação do uso do microblog Twitter.

(...)

O objetivo geral deste trabalho é o de analisar a maneira como o enunciador/narrador Dracon1ano é (re)construído no interior da obra.

Texto Disponível na íntegra em :
<https://drive.google.com/file/d/1-xpRXWojf20aE9WmY4W1dHbnFfoGBOaV/view?usp=sharing>

NASCE UMA ESTRELA*.



Em 21 de maio de 1983, Ana Flávia e Marcelo chegam à família Gama Dias de Lima. Parentes e amigos orgulhosos com o casal de gêmeos. Dois dias depois, a notícia de que Marcelo nasceu com síndrome de Down, deficiência   mental e intelectual. “Andaria tardiamente, dificilmente falaria, aprendizagem reduzida, vida curta devido aos comprometimentos cardíacos e digestivos”. Depois de 11 dias, o diagnóstico, de CIV (comunicação intraventricular invertida): “Se não operar, ele não sobreviverá”.
Iniciou-se a vida do nosso Marcelo. Em quatro meses, 11 pneumonias e a corrida para operar: internações, quatro meses em São Paulo, cariologista, fisioterapias, estimulação psicomotora, endócrino, psicólogo, natação, escotismo, medicação e alimentação controladas. Nasce o desafio da sobrevivência, buscar o possível nas limitações, que a visão sobre a síndrome impõe: a exclusão social, a ignorância do que significa uma pessoa na condição de deficiente e à margem dos recursos de inclusão e cuidados especiais.
Nasce com Marcelo o amor de doação, humildade e determinação. De repetir muitas vezes, do desafio na linguagem, na coordenação psicomotora, nas cirurgias de alto risco, no sim das escolas e nos adoecimentos recorrentes.
Assim se desenvolve o Marcelo adulto, com os irmãos na universidade, o casamento do irmão José, o nascimento do sobrinho Chicco e a irmã se mudando para trabalhar. Marcelo se encolhe, a depressão se instala e todo o processo de aprendizado é comprometido. Ele não sonha, não sorri, não fala mais, se isola no seu mundo e nada mais acontece. Adormece o desejo de estudar e trabalhar no McDonald’s. Não entende o porquê  não ter os mesmos direitos dos demais.
Nova luta se inicia: psiquiatra, psicólogo, apneia do sono severa, arritmia e movimentos autistas. O incentivo dos profissionais e da família venceu o estado de letargia. Nasce o Marcelo superação, com a oportunidade de fazer um curso no Senac. Aceitou o treinamento na Câmara dos Deputados e no Senado e aprendeu a tarefa de garçom.
Em três meses, o curso se encerrou, a expressão “Eu sou feliz, sou útil” desapareceu. Marcelo regrediu, a depressão bateu forte. Finalmente, surgiu a oportunidade de trabalho, a chance de recuperar a vitalidade. Nasce a concretização de um sonho com a aceitação dele como funcionário do McDonald’s. Contrato de trabalho, documentação, conta bancária reavivaram sua emoção com a impressão digital no seu cartão de crédito. Abraçou-me com tanta alegria, senti seus batimentos cardíacos se confundindo com os meus. Agora, pertencia a um grupo parceiro de trabalho.
O primeiro salário, o orgulho de comprar com seu dinheiro, usando o cartão com a ajuda do adulto. Para Marcelo, não importa a marca do tênis, mas a confirmação de que é respeitado nas suas limitações. Não importa se suas tarefas sejam pouco para os outros, não cabe julgamento dentro do seu esforço para ser gente na grandeza da sua alma. Tudo isso significa poder construir a sua identidade social no trabalho e preservar a dignidade individual.
O trabalho trouxe a dimensão de sentido, que representa  a vida com dignidade, que todos os seres merecem. Como é maravilhoso ver Marcelo expressando leveza. O trabalho o enobrece, redimensionando o seu mundo emocional do “trabalhador Marcelo”.
Nasce a estrela Marcelo. Comemorar, no local de trabalho, os 36 anos ficará gravado em nossa memória, somando-se ao carinho de todos funcionários, familiares e amigos. Marcelo aprendendo, dentro das limitações, a sua dimensão de sentido da vida e de pertencimento que representaram a introjeção de valores apreendidos nas relações familiares experiências vividas. Aprendeu a ouvir, a tocar, a pensar, a desejar, a imitar e a amar e se sentir amado pela família e amigos.
No mundo subjetivo, está sobrevivendo, sendo diferenciado dos outros, superando a alienação, a retórica vazia do mundo objetivo. Marcelo é diferente. É dependente e pode contribuir “pequeno”, mas com grande intensidade nos valores que consegue agregar por onde passa. Marcelo é especial. O trabalho o está engrandecendo e resgatando a sua alegria.

 *Texto de Helenice Gama Dias De Lima
Publicado no Correio Braziliense do dia 10 de junho de 2019, coluna Opinião, p.11


COMENTO

Entre tantas tragédias e crueldades publicadas nos jornais, surpreendeu-me esse lindo texto no CB. Emociona a leitura não só pela superação do "personagem", real, Marcelo, mas pelo espírito de cooperação e colaboração que conseguiu encontrar para se superar. É possível "concretizar sonhos", sim, apesar dos óbices que se interpõem em nossos caminhos. Marcelo mostrou que é possível. O sonho dele era da dimensão de suas limitações, ser útil. Por fim, a relação de uma realização pessoal se deu com o emprego, "O trabalho trouxe a dimensão de sentido, que representa  a vida com dignidade, que todos os seres merece". Essa dignidade que hoje falta a mais de 12 milhões de desempregados no país. Que a história de Marcelo seja uma referência para outras famílias que tenham parentes na mesma condição. que a história de Marcelo seja-nos um instigador de humanização. 

Roner S Gama

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