Natal, período onde a cristandade procura ter o mínimo de sensibilidade e uma ligeira reflexão interior. Alguns culpam o individualismo, mas me pergunto o que fizeram as grandes massificações ideológicas? Relembremos a Alemanha nazista, a Rússia Stalinista, o Terror cambojano, A guerra dos Balcãs, o terror islâmico. Esses são apenas os mais divulgados. Não creio que o problema seja apenas o individuo. É o individuo e o coletivo, é o homem amplificado em sociedade, como disse o Sábio Tagori “OS HOMENS SÃO CRUÉIS, MAS O HOMEM É BOM.” O problema do individualismo é auto referência e a impossibilidade de agregar e contrabalançar o seu eu com o outro. Então cada sujeito é um deus para si, corroborado ainda pelo mercado e pela mídia, e que vê no outro apenas um concorrente a ser superado.
Não sou pregador do “amai-vos uns aos outros”, é impossível, mas ao menos o do respeite-se uns aos outros. Respeite o direito alheio, seja cordial no trânsito, respeite o seu lugar no trânsito, respeite o direito dos mais velhos. Não meta a mão no dinheiro público. Construa cada um a cidadania através do respeito ao outro, respeito ao direito alheio.
No mais, nobres amigos, devemos pensar na brevidade da vida e o que podemos construir de positivo para que nossos descendentes possam nos perpetuar através do que deixamos. Rui Barbosa na célebre mensagem aos moços coloca “Para o coração, pois, não há passado, nem futuro, nem ausência, pretérito e porvir, tudo lhe é atualidade, tudo presença. Mas presença animada e vivente, palpitante e criadora, neste regaço interior, onde os mortos renascem, prenascem os vindoiros, e os distanciosos se ajuntam, ao influxo de um talismã, pelo qual, nesse mágico microcosmo de maravilhas, encerrado na breve arca de um peito humano, cabe, em evocações de cada instante, a humanidade toda e a mesma eternidade.” Nascer e morrer, o início e o fim, ligados pelo liame VIDA. Esta que tanto maltratamos, ao contrário do que pensam alguns, e que nos é tão cara. Vivamos não apenas em nós, mas nos outros, nos que virão e nos que se foram.
Para encerrar leiamos este lindo poema de Cecília Meireles, NOTURNO. Uma brilhante inspiração para pensar o homem, o ser, o outro, nós, a vida.
Feliz natal.
Noturno
Quem tem coragem de perguntar, na noite imensa?
E que valem as árvores, as casas, a chuva, o pequeno transeunte?
Que vale o pensamento humano,
esforçado e vencido,
na turbulência das horas?
Que valem a conversa apenas murmurada,
a erma ternura, os delicados adeuses?
Que valem as pálpebras da tímida esperança,
orvalhadas de trêmulo sal?
O sangue e a lágrima são pequenos cristais sutis,
no profundo diagrama.
E o homem tão inutilmente pensante e pensando
só tem a tristeza para distingui-lo.
Porque havia nas úmidas paragens
animais adormecidos, com o mesmo mistério humano:
grandes como pórticos, suaves como veludo,
mas sem lembranças históricas,
sem compromissos de viver.
Grandes animais sem passado, sem antecedentes,
puros e límpidos,
apenas com o peso do trabalho em seus poderosos flancos
e noções de água e de primavera nas tranqüilas narinas
e na seda longa das crinas desfraldadas.
Mas a noite desmanchava-se no oriente,
cheia de flores amarelas e vermelhas.
E os cavalos erguiam, entre mil sonhos vacilantes,
erguiam no ar a vigorosa cabeça,
e começavam a puxar as imensas rodas do dia.
Ah! o despertar dos animais no vasto campo!
Este sair do sono, este continuar da vida!
O caminho que vai das pastagens etéreas da noite
ao claro dia da humana vassalagem!
Cecília Meireles
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